terça-feira, 13 de maio de 2008

Culpas de quê, ó Coimbra?

É claro que Coimbra tem que definir uma estratégia: inteligente, constante e mobilizadora, das instituições, da cidade e da população. E a partir dos seus trunfos, obviamente. A cidade tem argumentos mais que suficientes para uma estratégia forte e de qualidade. Um nome, a força de uma marca extraordinária. Mas aproveita-a mal. É preciso conciliar ideias, orientar energias, vencer inibições. Que lhe criaram ou que ela deixou que lhe criassem. Antes de tudo, vencer inibições. E para isso ter consciência delas. Há muita gente interessada em criar inibições a Coimbra. E complexos de culpa. Ou porque é uma cidade arrogante, por ter concentrado, durante séculos, a cultura universitária em Portugal. Ou porque é tradicionalista, pois há por cá ainda umas praxes, e como se tivessem sido inventadas aqui. Ou porque o país está cheio de universidades, (sem dúvida universais), enquanto que a de Coimbra se “regionalizou”, ou porque a cidade parou e a torre de marfim é assim, assim (argumento inevitável de todas as oposições sem ideias), etc. Ultimamente foi a do provincianismo. Na próxima será, talvez, a do bacoquismo.
Estas más vontades são frequentes. Da chamada Província, porque aqui é difícil entender que o crescimento real é interactivo, dinâmico, feito cada vez mais em rede e dinamizando toda uma região. Em termos europeus a Região Centro, toda ela, é uma região minúscula.
Mas de Lisboa também, porque nos enfraquece, cada vez mais cheia de provincianos. Dos que o não querem parecer, e dos que julgam não o ser, porque não parecem. Todos somos provincianos, felizmente, mas todos infelizmente a tentar passar por não ser: os da Província, disfarçando os sotaques, os de cidade acentuando os tiques.
De uma maneira ou doutra há um velho despeito contra Coimbra, um ressentimento ancestral de avós e tetravós, bastante tolerado, é certo, mas que uma burguesia recentemente ilustrada reacendeu e alimenta com secreto azedume. E a coisa passa para os jornais a partir de uma mentalidade anos 60, apesar do piparote que Coimbra deu então no País. Querem dois exemplos?
No rescaldo do 11 de Setembro, quando se difundiam conselhos para lidar com encomendas duvidosas, Felícia Cabrita publicou no Expresso de 27/1/01 uma reportagem sobre os medos do «pó branco». Num dos casos relatados uma estranha encomenda chegara ao Departamento de Matemática, vinda de país aparentemente árabe. Chamou-se a P.J. mas, afinal, não era nada. Contudo, reparem na delícia desta passagem da Felícia: «Em Coimbra, na douta Universidade, o medo rastejou também na Porta Férrea. Caruncho? Neste caso, contra toda a lógica, não». Note-se o adequado do humor para com a «sempre sábia e avisada Universidade de Coimbra», como disse ainda a referida Cabrita.
Numa crónica do Público, cuja data já não recordo, Filomena Mónica, num raro dia em que estava bem disposta, começou a ver tudo cor-de-rosa e a tecer loas às coisas portuguesas. Assim à moda de “Os simples” de Guerra Junqueiro, com toc toc toc pela estrada plana velhinha atrás jumentinha adiante e tudo. E talvez pela proximidade ou por jogo de orelhas deu-lhe para embicar com a Universidade Portuguesa, que lhe aparecia como uma instituição digna, e de tal modo que «até a de Coimbra me pareceu menos má». Tratando-se de alguém da Universidade Nova de Lisboa – luz do Mundo como nos seus quatro cantos é sabido - ficou-lhe bem a reconhecida objectividade de juízo.Temos, pois, que desmontar estes cercos. E a melhor maneira é ir à luta, a partir da cidade, da Universidade e da região. E nada de nos andarmos a chamar nomes, porque, para isso, temos os que não sabem o que hão-de fazer à vida.